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ENTREVISTAS - 09/03/2010 - 08:00
Juarez Domingues Carneiro

“A mortalidade é de 50% nos dois primeiros anos”

Presidente do Conselho Federal de Contabilidade, o catarinense Juarez Domingues Carneiro, sustenta que os problemas de gestão provocam maior índice de fracasso do que os estruturais como carga tributária.

QUEM É Novo presidente do Conselho Federal de Contabilidade, depois de dois mandatos no Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina.

O QUE FAZ Lidera o processo de qualificação de 417 mil profissionais para as Normas Internacionais de Contabilidade, com objetivo de maior transparência e qualidade nas informações, aperfeiçoando a gestão das empresas e evitando a falência das menores. 

Qual sua maior preocupação quanto à mortalidade das pequenas e médias empresas brasileiras?
Juarez Carneiro – A mortalidade das empresas no Brasil ainda é alta, gira em torno de 50% nos dois primeiros anos. E esse número chega a quase 60% nos quatro primeiros anos. De 2000 prá cá, houve uma pequena redução, mas não significativa. E mais, 78% das causas da mortalidade das empresas estão relacionadas à gestão. O contador é o principal consultor das empresas. Verificamos que, quanto melhor preparado em termos de gestão, não somente em termos de contabilidade, melhor o contador pode assessorar o micro e pequeno empresário e com isso reduzir a mortalidade das empresas. Então, criamos o Programa Contabilizando Sucesso, já implementado em todo o Brasil. Esse programa já começou a gerar alguns frutos, mas ainda preocupa o índice de mortalidade, porque as empresas são a base do desenvolvimento, trazem a renda familiar e propiciam a qualidade de vida. Quanto menos empresas morrerem, melhor para a sociedade como um todo. 

Como o contador contribuiria?
JC – O Brasil é um país extremamente empreendedor, onde é permitido a qualquer brasileiro sonhar com um negócio próprio. Isso faz com que, de modo geral extremamente criativos, os brasileiros visualizem um negócio próprio sem nenhuma visão gerencial. A vontade de ser empresário faz com que tome empréstimo, compre máquina e que, depois, não dê conta de pagar o financiamento. Com a mesma facilidade com que abre a empresa, fecha. Nós podemos orientar melhor o empresário na constituição do seu negócio, fazendo plano de negócios, estudos de mercado, de viabilidade econômica e financeira, de fornecimento de matéria-prima. Estamos incorporando na formação profissional do contador instrumentos de gestão. Melhor preparado, vai inclusive indicar a hora de contratar outros profissionais como administradores, especialistas em marketing e recursos humanos. A mortalidade não está ligada a grandes fatores como carga tributária. Não, isso o brasileiro convive. 

As mudanças de legislação têm melhorado a vida das empresas ou o País não escapa da necessidade urgente de uma reforma tributária?
JC – A reforma tributária é necessária, estamos chegando num ponto de onde vai ser difícil continuar sem que haja uma reforma profunda. Ouço falar em reforma tributária pelo menos nos últimos 25 anos e sempre que está próxima de se concretizar, uma série de fatores a inviabilizam. Acabo interpretando que é porque a situação ainda é suportável e conveniente. 

Qual o impacto desse ano eleitoral na vida econômica do País?
JC – O processo de transição que vai haver, seja dentro do próprio partido de situação ou seja de mudança para a oposição, está mais tranquilo do que no primeiro governo do próprio Lula. O Brasil está numa condição melhor do que estava nos últimos anos, isso é fato não apenas comprovado internamente mas avaliado e reconhecido no plano internacional. Hoje o mundo vê o Brasil realmente como uma potência emergente que, em pouco tempo, é possível esteja entre as maiores do mundo. Esse dado altamente positivo, ligado ao número expressivo de trabalhadores com carteira de trabalho assinada e acesso à Previdência e até a uma grande diminuição dos bolsões de probreza, demonstra que efetivamente o Brasil cresceu em várias áreas. O processo eleitoral traz prejuízos basicamente a projetos que poderiam ser votados ainda este ano e que serão postergados por força da eleição iminente. Que acabarão voltando à pauta só no ano seguinte. Em ano eleitoral preponderam as questões políticas e qualquer tipo de decisão pode trazer um desgaste, uma consequência muito grande, então acaba sendo jogada para a frente. 

Projetos como da ficha-limpa...
JC – A tendência é de que haja cada vez mais um processo de transparência. É preciso que se caminhe na identificação dos problemas, daquilo que é nocivo ao Estado e que é produzido por pessoas que confundem servir à sociedade com servir a si mesmas. Mas, em paralelo, é preciso uma Justiça mais incisiva e com a capacidade de colocar em prática as merecidas punições. No Brasil, infelizmente temos uma infinidade de mecanismos que permitem arrastar o processo ao longo do tempo, até cair no esquecimento. Algo que em determinado momento é muito forte e presente, em tese até com uma característica de comprovação muito grande, com o decorrer do tempo se esvazia. Agora, também nos traz a tranquilidade, de que é assegurado ao cidadão o amplo direito de defesa. Porque, quantas situações também são produzidas com interesse político e aí corre-se o risco de julgar e condenar um cidadão que não merecia ser condenado. Quando se faz justiça, é punido quem deve ser punido e inocentado quem deve ser inocentado.


Fonte: Adriana Baldissarelli
Foto: Divulgação